6 de mai de 2010

O hábito da servidão, por Fernando Aguiar*

Em Florianópolis, vim a conhecer a palavra servidão com o sentido de via pública. O rapaz que cuidou de minha mudança para o Campeche explicou-me sua origem: o açoriano colonizador da Ilha de Santa Catarina primeiro construía sua morada para só depois pensar no meio de acesso a ela. Com este fim, servia então (de) um metro de seu terreno à comunidade. O dicionário lhe dá razão quanto à significação geral do termo: segundo o Aurélio, a servidão é uma passagem, para uso do público, por um terreno que é de propriedade particular. Estatutariamente, permanece sinônimo de rua estreita, geralmente sem saída, como as rues des riverains e as culs-de-sac da tradição francesa.

Ambas as definições falam, assim, de uma origem que se conservou não apenas no nome e na acepção. Mas observo que, em algum momento, esta prática do ilhéu fundador perverteu-se, e se manifesta pelo seu oposto: em vez de cederem, muitos são os que se apropriam de um metro ou mais da via pública, adicionando ao seu terreno o espaço destinado à calçada e ao pobre pedestre.

Não parece, assim, mero acaso que Florianópolis, como se governada pelo espírito da servidão de seus começos, permaneça uma cidade (quase) sem calçadas. Tem-se mesmo a impressão de que apenas em superpopulosas cidades asiáticas de trânsito caótico, os cidadãos disputam com tanta naturalidade seu espaço, constituindo-se em verdadeiro milagre que os atropelamentos não sejam mais frequentes. A frase lida em algum lugar – “sou do tempo em que ir à cidade grande era para alguns uma aventura no que se refere ao embate com os carros”– não pertence, definitivamente, ao habitante da Ilha.

É certo que, em muitos lugares, a geografia física e humana da cidade não nos permite mais sonhar com largas calçadas, salvo raras exceções. Mas que tenhamos, ao menos, calçadas, simplesmente.
* PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA DA UFSC
fonte: Diario.com.br
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