Esqueça a casinha de sapê, os novos ecologistas do setor imobiliário investem mesmo é no concreto, em grandes prédios comerciais. Mas um prédio com dezenas de andares e vários escritórios e um condicionador de ar central pode ser sustentável? Segundo a gerente de Consultoria em Sustentabilidade da Cushman & Wakefield Juliana Malho, sim. E mais, mesmo que o custo da obra seja inicialmente maior, a diferença será compensada na manutenção operacional do prédio – e até na produtividade dos funcionários de escritórios que ele abriga.
A primeira distinção que Juliana faz é justamente a de não confundir o movimento Green Building com “ecobichogrilismo”. A idéia não é integração com a natureza, mas um processo que agrida menos o meio ambiente desde a obra até o produto final. Números do Green Building Council dos EUA (USGBC) dizem que: uma edificação aumenta em 12% o consumo de água de uma região, são gerados 30% mais gases do efeito estufa e 65% mais esgoto em média.
Sede da Adobe, na Califórnia, tem certificação sustentávelÉ na redução desses índices ainda no canteiro de obras que entra em cena uma certificação de processo de Green Building chamada Leed (Liderança em Energia e Ambientalismo em Projetos, na sigla em inglês). O selo, que funciona como um ISO 9000 ecologicamente correto para construção, tem vários passos e exige, por exemplo, uma eficiência energética que reduza em, no mínimo, 10% o consumo do prédio após sua finalização. A certificação, criada nos EUA a partir de vários outros selos com a mesma idéia básica surgidos em outras partes do mundo. No Brasil, foi em 2004 o primeiro pedido de certificação Leed. Hoje, há mais de 170 pedidos na fila.
Obra fica 9% mais cara
Juliana admite que 170 pedidos em meio a um boom imobiliário vivido no país é um número pequeno. Ela explica que a conta da construção verde não é totalmente paga após a obra, na venda do imóvel ou nos aluguéis dos andares. “Uma construção verde pode ter um acréscimo de até 9% no preço por metro quadrado”, informa baseada em dados da construtora Tishman Speyer. Em construções comuns, esse custo já varia entre R$ 2 mil a R$ 2,5 mil por metro quadrado segundo a própria especialista. Um acréscimo de 9% no valor mais baixo já elevaria o custo da obra em quase R$ 2,2 mil por metro quadrado.
Características dos prédios verdes
O processo todo começa na seleção de fornecedores de materiais para a obra, o que inclui desde uma a pesquisa de CNPJ, a verificação da licença ambiental, normas técnicas e durabilidade do produto até o cuidado para que os caminhões de detritos ou areia não deixem a área ao redor do canteiro suja. Os prédios verdes são equipados com condicionadores de ar mas, para compensar o gasto, procuram alternativas para diminuir o consumo energia. Segundo o USGBC, isso pode passar pela instalação de painéis solares, uso de sensores para desligamento de luzes desnecessárias e, principalmente, o desenho do projeto, que deve permitir o máximo de passagem de luz natural por janelas, clarabóias ou o que combinar com o estilo previsto.
Luz natural ajuda a economizar energia
No telhado da sede do Google, há painéis de energia solarO uso de água também é racionalizado, com a previsão de instalações para coleta e reaproveitamento de água da chuva, uso de descargas sanitárias econômicas e até mictórios sem descargas – utilizado no prédio corporativo da companhia de software Adobe, na Califórnia. Lá ainda, o sistema de irrigação de plantas é controlado por computador.
Há ainda exigências paisagísticas. Segundo os técnicos, deve haver um jardim de tamanho calculado para melhorar a permeabilidade do solo e toma-se cuidado com a seleção de materiais claros, que não absorvem tanto calor e podem diminuir o “efeito ilha”. Recursos como esses poderiam reduzir o calor da área em até 1ºC.
Prédios comerciais x residenciais
Esse custo que faz com que o Green Building seja caro demais para a construção de prédios residenciais. “Nesse caso, a empresa constrói e vende direto para o usuário final. Ela não tem preocupações com os custos de manutenção da operação do prédio”, afirma. A lógica por trás desse raciocínio é a vedete dos ecologistas de concreto. Segundo Juliana, prédios verdes economizam nos custos de manutenção. A redução é de, em média 25% no uso de energia elétrica, 33% a 39% na emissão de CO2 e 40% no uso de água potável. Em termos de custo, isso empata com os 9% adicionados aos custos de construção, mas a rentabilidade fica diluída no longo prazo de operação dos imóveis comerciais.
A conta, entretanto, ainda não fecha totalmente na hora da venda do imóvel. Segundo pesquisas, o valor percebido pelo comprador ainda é baixo, resultando num acréscimo de preço de apenas 7,5%. O acréscimo no valor da taxa de locação dos andares desses prédios comerciais sustentáveis é ainda mais baixo: 3%. Não há nenhum tipo de incentivo governamental para construções desse tipo.
Com bases nesses números, os argumentos para construtoras, compradores e locatários desse tipo de prédio voltam-se para as possibilidades de ganhos decorrentes. Dados do site do USGBC ilustram essa estratégia ao informar que as ausências de funcionários podem ser reduzidas em até 15% e a produtividade das pessoas que trabalham em prédios verdes pode crescer até 16%.
De novo, na Adobe: proximidade de janelas são consideradas desestressantesNo Rio Grande do Sul
Resultados econômicos a parte, entre os 14 projetos já certificados existentes no país estão agências bancárias, torres comerciais e centros de logística. Na lista devem entrar estádios de futebol, já que existe uma forte recomendação do Comitê Olímpico para que as obras sejam sustentáveis. No Rio Grande do Sul, o San Pellegrino Shopping Mall, em Caxias do Sul, deve ser o primeiro prédio.
Boa parte da estrutura do shopping é feita de janelas PENSE IMÓVEIS