14 de fev de 2012

Rosa para meninas e azul para meninos? Como agir diante das questões de gênero na infância

O que os especialistas dizem sobre o tema.


No filme Tomboy, produção francesa em cartaz na Capital, a pequena Laure, 10 anos, se passa por um menino para se enturmar com as crianças da nova vizinhança para onde se muda com os pais e com a irmã menor. Dirigido e escrito por Céline Sciamma, o longa mostra como Laure se transforma temporariamente em Michaël, adotando postura, guarda-roupa e corte de cabelo masculinos.

Ao mesmo tempo, busca estratégias para esconder sua condição biológica refugiando-se em um bosque, por exemplo, para urinar durante a partida de futebol. Tomboy reacende o debate sobre como as crianças e os pais devem lidar com as convenções culturalmente estabelecidas sobre o que é próprio de cada gênero.

Uma irreverente síntese do que está por trás desse debate aparece em um vídeo que virou fenômeno na internet no final do ano passado (embora tenha sido postado em maio), assistido por mais de 3,6 milhões de pessoas. Em uma loja de brinquedos, a garota Riley, quatro anos, moradora do Estado de Nova York, questiona por que as meninas precisam sempre brincar de princesas, enquanto os meninos brincam de super-heróis. Riley argumenta que tanto meninos quanto meninas podem gostar de ambas as brincadeiras.

– As empresas que fazem esses (brinquedos) tentam levar as meninas a comprar coisas rosas, em vez das coisas que os meninos gostam de comprar, certo? – ela pergunta ao pai, que está atrás da câmera.

A questão sobre o que cabe aos meninos e o que é das meninas está por todos os lados. Hoje com cinco anos, a garota Shiloh, primeira filha biológica de Angelina Jolie e Brad Pitt, é vista publicamente vestindo roupas usualmente preferidas por meninos. A postura do casal hollywoodiano, que tem outros cinco filhos (três adotados e dois biológicos), é de compreensão: Shiloh se veste como se sente melhor. Mas, afinal, como devem agir os pais?

Casais começam a desafiar as convenções de gênero também longe das lentes dos paparazzi. A advogada e empresária Daniela Policarpo, 26 anos, e o advogado Volnir Aragão, 46 anos, compraram recentemente uma bermuda lilás para o filho Lorenzo, 11 meses.

– É natural para nós. O Lorenzo brinca de boneca e de cozinha. E outras brincadeiras soam como coisa guri: ele destrói coisas, gosta de jogar bola. Nunca limitamos. Se surgirem diferenças de gênero, será naturalmente – diz Daniela.

Ela conta que o casal já foi questionado por parentes e amigos, mas mantém a convicção.

– Comprei fraldas de pano que tinham estampas de animais. Me disseram: “Isso é gay”. Mas prefiro criar um filho gay a criar um filho homofóbico. É na primeira infância que formamos a sociedade do futuro – defende.

Diferenças desafiadoras

Como agir se seu filho ou sua filha se interessar por brinquedos ou roupas característicos do outro sexo? Não menos importante do que isso: o que o comportamento dos pais neste tipo de situação diz a respeito de suas próprias inseguranças?

Mais do que uma questão familiar, as convenções de gênero atribuídas às crianças são definidoras de sua saúde emocional e têm repercussões na forma com que elas interagirão em sociedade quando adultas. Meu Filho ouviu especialistas sobre o tema.

Insegurança dos pais

Se antigamente as marcações de gênero eram mais definidas do que hoje, por outro lado havia uma margem de idade para a cobrança começar, compara a psicanalista Diana Corso. Com brincadeiras cada vez mais sexuadas, o tempo para experimentar foi reduzido a quase zero.

– Antes, as meninas podiam ser molecas até uma certa idade. Hoje, têm de ser meninas desde o dia em que nascem. Os meninos são vestidos de surfistinha aos dois anos. Parece que os pais querem ter muitas certezas sobre isso – afirma Diana.

O medo de falhar na tarefa de transmitir a identidade de gênero para os filhos reflete uma insegurança dos pais a respeito de si próprios, como ela ressalva:

– Hoje, vemos homens aliviados quando nasce uma filha mulher, pois, se fosse um menino, a tarefa seria desse pai. Se um filho ou filha revela uma identidade sexual ambígua, é como se o pai ou a mãe se sentisse desautorizado. Mas é uma insegurança de todos nós, que dura a vida inteira. Nunca nos sentimos definitivamente capazes de ter certeza de sermos suficientemente masculinos ou femininos.

Quando se preocupar

Antes de criticar ou repreender a criança pelo tipo de brinquedo que ela escolhe, é preciso tentar compreender. Muitos pais se assustam precipitadamente com atividades que reproduzem ingenuamente cenas que as crianças veem na vida real, conforme explica a psicopedagoga Maria Jacinta Staudt:

– Brinquedo infantil não tem gênero. O fato de um menino brincar de casinha ou de bebê não vai definir sua sexualidade. Essa definição se dá por outras áreas, não pelo jogo lúdico.

A dúvida que aflige muitos pais é: existe um indício de que a brincadeira pode não ser positiva para a saúde emocional da criança? Responde Maria Jacinta:

– Os pais devem estar atentos quando a criança apresentar uma questão excessivamente destrutiva. Não me refiro ao ato de desmontar para ver como funciona, mas à destruição com muita raiva. Não que isso signifique uma patologia, mas o excesso, a dose exagerada deve fazer com que o olhar dos pais seja mais minucioso, e a presença, mais efetiva.

Consequências para a sociedade

Reforçados pela família, pela escola e por outras instituições, os padrões do que é supostamente adequado para meninos e para meninas influenciam diretamente a vida das crianças quando adultas e, portanto, a sociedade.

– A consequência mais grave está relacionada à violência de gênero – afirma Jane Felipe de Souza, professora da Faculdade de Educação da UFRGS e integrante do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (Geerge) e do Grupo de Estudos em Educação Infantil (Gein) da UFRGS.

Segundo Jane, os pais são mais condescendentes com os filhos homens na hora de impor limites.

– O menino cresce com a ideia de que não pode ser frustrado em seus desejos, o que acaba gerando um sujeito mais violento. Se uma namorada, no futuro, disser que ele não é mais o objeto de seu desejo amoroso, ele será capaz de bater nela.

Coisa de menino ou de menina?

A psicóloga Cristina Bergonsi propõe reflexões e atitudes que podem ajudar os pais a lidar com situações de limites de gênero.

PARA PENSAR
- O que importa não é o brinquedo, mas o significado que a criança dá ao seu brincar com o objeto e o prazer que mostra.
- Meninos e meninas podem compartilhar experiências de brincar de carrinho, boneca ou comidinha porque ensaiam no seu imaginário como percebem o mundo.
- Brincar é um momento de construção de conceitos no qual adultos e crianças podem aproveitar para administrar raivas, entender tristezas e promover alegria.
- Pais que brincam, conversam e procuram ser criativos nas vivências com seus filhos têm acesso para questionar e problematizar dúvidas que possam surgir.

PARA EXPERIMENTAR
- Quando seu filho escolher um brinquedo que pareça fora do padrão considerado de seu sexo, participe observando o seu brincar de modo despretensioso e questione o que lhe parece divertido nesta brincadeira.
- Preste atenção ao conversar sobre comportamento com seus filhos, pois o fato de uma criança experimentar algo considerado do padrão do sexo oposto não significa que ela esteja se identificando com o sexo oposto.
- As crianças aprendem mais pelos exemplos que vivenciam do que por conselhos.

Fonte: diariocatarinense.clicrbs.com.br

Share:

0 comentários:

Postar um comentário

.

Vídeos

Loading...

DICA EMPRESARIAL