16 de abr de 2010

Vídeos mais longos na web acabam com mito da "geração MTV"

Quando o cinema começou a ser desenvolvido, no final do século 19, a maioria dos filmes tinha menos de um minuto de duração, devido às limitações da tecnologia. Pouco mais de um século mais tarde, quando o vídeo para a web foi lançado, a duração usual das produções também era curta, por motivos tanto sociais quanto técnicos.

Os criadores de vídeos acreditavam, em geral, que suas audiências fossem impacientes. Um número cômico de três minutos de duração? Melhor reduzi-lo a 90 segundos. As conexões lentas com a internet garantiam que o processo de assistir a um vídeo fosse tedioso, e havia pouca publicidade que ajudasse a compensar os altos custos de transmissão. E por isso, o primeiro mandamento para os vídeos online passou a ser: mantenha-os curtos.
Novos hábitos de uso da web, auxiliados por vídeos que ocupam a tela inteira tornados possíveis pela chegada de conexões mais rápidas para com a internet, estão começando a derrubar a regra. A internet está se tornando uma jukebox para o consumo de toda espécie concebível de vídeo - de imagens de bebês a produções teatrais - e produtores e anunciantes começam a descobrir que existem muitos usuários dispostos a assistir a vídeos com mais de dois minutos de duração.
Os vídeos virais que faziam mais sucesso na era do YouTube 1.0 - cachorros andando de skate ou gatos brincando com um teclado de computador são bons exemplos - estão sendo substituídos por um ecossistema novo e mais vibrante de vídeos online. As produtoras agora criam programas com 10 a 20 minutos de duração para a internet, e surgiram algumas séries e personagens mais desenvolvidos, com narrativas longas - ou seja, essas produções passaram a ser mais parecidas com os programas de TV convencionais, ainda que sejam exibidos de uma maneira muito distante da grade rígida de programação adotada pelas redes de televisão. Algumas das produtoras que se concentram em vídeos para a internet escolheram deliberadamente o mês de julho como data de lançamento, por saberem que as férias de verão são um período em que as redes de TV aberta e a cabo norte-americanas em geral transmitem reprises de seriados e reality shows.
Mas cabe às redes de TV convencionais boa parte do crédito pelo fato de que o público tenha começado a aceitar vídeos mais longos na internet. Nas duas temporadas passadas de televisão, quase todos os seriados das redes de TV aberta foram também exibidos online e gratuitamente, o que acostumou os espectadores a assistir na internet vídeos com 20 ou mais minutos de duração. De acordo com algumas estimativas, um em cada quatro internautas norte-americanos hoje usa o Hulu, o serviço online que distribui a programação da NBC e da Fox, a cada mês.
"As pessoas, por bem ou por mal, estão começando a se acostumar mais com levar o computador para a cama com elas", diz Dina Kaplan, co-fundadora da Blip.tv.
A empresa de Kaplan distribui dezenas de seriados na web. Um ano atrás, 24 dos 25 vídeos mais assistidos nos servidores da empresa tinham menos de cinco minutos de duração. Agora, a duração média dos vídeos hospedados pela Blip.tv é de 11 minutos - "o que surpreende até a nós", ela diz. O vídeo mais longo que subiu para os servidores do site em maio tem 133 minutos de duração, o equivalente a um longa-metragem.
Dave Beller, produtor de Safety Geeks: SVI, sobre um trio de personagens que torna o mundo ainda mais perigoso ao tentar protegê-lo, diz que "a falácia de que qualquer pessoa nascida depois da geração MTV sofre de déficit de atenção" vem sendo refutada pelo sucesso dos sites que exibem vídeos originais.
Embora seja improvável que os videos online venham a substituir a televisão, pelo menos em breve, eles definitivamente chegaram ao mercado comercial. Cerca de 150 milhões de internautas nos Estados Unidos assistem a cerca de 14,5 bilhões de vídeos ao mês, de acordo com a comScore, que mede a audiência de internet. Isso representa uma média de 97 vídeos mensais por espectador. Ainda que a web não conte com um sistema padrão de mensuração para vídeos, a comScore afirma que a duração média dos vídeos online vem subindo lenta mas seguramente nos últimos 12 meses, para uma média de 3,4 minutos em março.
É certo que muitos dos vídeos mais assistidos continuam bem curtos, com a duração típica de uma canção. Mas o YouTube, o site dominante de vídeo, recentemente reconheceu a tendência de audiência e acrescentou uma categoria "programas" às suas páginas, para direcionar usuários a episódios de TV e filmes mais longos. Jon Gibs, vice-presidente de análise de mídia da Nielsen, uma empresa de mensuração de audiência, disse que os vídeos online - que segundo projeções da eMarketer movimentarão US$ 1 bilhão ao ano em 2011 - estão em momento decisivo.
"Historicamente, a experiência online com vídeos sempre tem girado em torno de clipes", ele disse. "Acreditamos que estamos ingressando em um período de transição no qual porção maior da audiência começará a aceitar vídeos em formato mais longo".
Dancing with the Stars, um reality show muito popular que é veiculado pela rede de TV ABC, atraiu mais de dois milhões de espectadores ao site da rede, de acordo com a Nielsen.
Mas boa parte da inovação no segmento de vídeo vem sendo propelida por pessoas que - graças à disponibilidade de equipamentos de edição baratos e custos de distribuição literalmente zero - estão criando conteúdo especificamente para uma audiência online.
"Na web, os produtores têm essa deliciosa liberdade para produzir conteúdo com o comprimento que preferirem, e estão começando a tirar vantagem dela", diz Kaplan.
Por que demorou tanto? Tom Konkle, sócio de Beeler na produção de Safety Geeks, sugeriu que a regra do "quanto mais curto, melhor" refletia limitações da internet em termos de velocidade e espaço de armazenagem. Com o aumento do poderio dos computadores, a experiência de vídeo online também evoluiu.
"Alguns anos atrás, passar três minutos 'assistindo ao computador' parecia novidade, mas agora é prática tão comum quanto recorrer ao televisor", disse.
Dois anos atrás, quando o comediante David Wain estava começando a montar o primeiro episódio de Wainy Days, uma série cômica produzida e estrelada por ele, ligou para Rob Barnett, um dos co-fundadores do My Damn Channel, um serviço de distribuição de vídeo, para perguntar se um vídeo com nove minutos de duração pareceria arrastado demais para os espectadores do serviço. Barnett disse que cabia ao criador da série decidir, e Wain voltou a ligar uma hora mais tarde dizendo que havia chegado a uma decisão: dividiria o primeiro episódio em três partes.
"Aposto que, se aquele telefonema estivesse acontecendo hoje, nós teríamos optado por manter o vídeo de nove minutos", afirma Barnett. "Acredito que a qualidade importa mais que os minutos e segundos de um vídeo".
Em resumo, a qualidade da narrativa está se tornando mais importante que os cronômetros. "Se houver uma boa narrativa e uma boa produção, as pessoas estão dispostas a dedicar seu tempo àquele conteúdo", disse Eric Berger, vice-presidente sênior do Crackle, um site de vídeo da Sony.
Mais que qualquer coisa, a disposição de assistir vídeos mais longos pode ser prova do amadurecimento da mídia em si. Konkle aponta que os primeiros quinetoscópios, produzidos na década de 1890, tinham cerca de 30 segundos de comprimento, porque esse método de registro requeria quantidades absurdas de filme.
"Todos aceitavam o fato de que um quinestocópio de bom tamanho devia ter 30 segundos. Era isso que os primeiros cineastas acreditavam que a plateia estava disposta a aceitar", diz Konkle. "Quanto alguém começou a produzir curtas-metragens de três minutos, deve ter parecido um salto gigantesco de ousadia". Os filmes de sucesso modernos, claro, têm durações da ordem das duas horas, e não de alguns segundos. A produção que mais atraiu espectadores aos cinemas no ano passado, Batman: O Cavaleiro das Trevas, tinha mais de 150 minutos.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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