18 de out de 2010

Soldados e cientistas se unem para encontrar assassino de abelhas

DENVER - Esse tem sido um dos grandes mistérios da horticultura: o que está matando as abelhas? Desde 2006, de 20 a 40% das colônias de abelhas nos EUA morreram, com cada uma delas contendo cerca de 50 mil insetos.
A lista de suspeitos abrangia de pesticidas a alimentos geneticamente modificados. Agora, uma parceria incomum - entre cientistas militares e entomologistas - parece ter alcançado um enorme progresso: a identificação de um novo suspeito, ou dois.

A interação de um fungo com um vírus aparentemente causou o problema, segundo um artigo escrito por cientistas militares de Maryland e especialistas em abelhas de Montana, e publicado na revista científica "PLoS One".

Ainda não se sabe exatamente qual combinação mata as abelhas, afirmaram os cientistas - isso seria assunto para a próxima rodada de pesquisas.

Mas há pistas sólidas: tanto o vírus quanto o fungo proliferam em climas frios e úmidos, e ambos fazem seu trabalho sujo nos intestinos da abelha - sugerindo que a nutrição do inseto é de alguma forma comprometida.

Uma estranha característica da redução das colônias , que ajudou a dificultar a solução, é que as abelhas não morrem simplesmente - elas voam em todas as direções para fora da colmeia e morrem sozinhas, dispersas.

Isso impossibilita um grande número de autópsias de abelhas - sim, os entomologistas fazem autópsias.

Equipes da Universidade de Montana, em Missoula, e da Universidade Estadual de Montana, em Bozeman, e cientistas do Centro Bioquímico Militar Edgewood, no norte de Baltimore, afirmaram em seu artigo conjunto que o ataque duplo do vírus-fungo foi encontrado em todas as colônias mortas estudadas pelo grupo. Sozinhos, os agentes parecem não ser capazes de tal devastação. Juntos, segundo sugere a pesquisa, eles são 100% fatais.

"De certa forma é como o ovo e a galinha - não sabemos quem veio primeiro", disse Jerry Bromenshenk, cientista pesquisador da Universidade de Montana, sobre a combinação vírus-fungo.

Tampouco está claro, acrescentou ele, se um dos agentes enfraquece a abelha o suficiente para que o segundo finalize com ela, ou se eles de alguma forma completam o poder destrutivo um do outro. "Eles são co-fatores, isso é tudo que podemos dizer até agora", disse.

Pesquisas de diversos anos atrás, conduzidas na Universidade da Califórnia, em São Francisco, já haviam identificado o fungo como parte do problema. E diversos vírus baseados no RNA também haviam sido detectados.

Mas a equipe Exército/Montana, usando um novo sistema de software desenvolvido pelos militares para a análise de proteínas, descobriu um novo vírus baseado no DNA, chamado N ceranae, e estabeleceu uma ligação com o fungo.

"Nossa missão é conseguir detectar para proteger nosso pessoal no campo contra qualquer ameaça biológica", disse Charles Wick, microbiologista de Edgewood.

As abelhas, segundo Wick, se mostraram uma perfeita oportunidade para testar o que o software analítico do exército podia fazer. "Nós o usamos nesse problema das abelhas como um estudo piloto", afirmou ele.

O sistema de software do exército - por si só um avanço no crescente campo das pesquisas de proteínas, ou proteômica - foi projetado para testar e identificar agentes biológicos em circunstâncias em que o comando não tem ideia de que tipo de ameaça pode estar enfrentando.

O sistema busca as proteínas singulares numa amostra, e então identifica um vírus ou outra forma de vida microscópica com base nas proteínas que ele é conhecido por conter.

O poder dessa ideia para a defesa militar ou de abelhas é imenso, dizem os pesquisadores, por permitir que eles usem algo que já sabem para encontrar algo que eles nem mesmo sabiam que estavam procurando.

Mas foi necessária uma conexão familiar - através de David Wick, irmão de Charles - para realmente ligar os pontos.
Quando a morte das colônias chegou às manchetes há alguns anos, David Wick, empresário de tecnologia que se mudou para Montana na década de 1990 buscando o estilo de vida ao ar livre, assistiu na televisão a uma entrevista com Bromenshenk sobre abelhas.
Wick sabia sobre o trabalho de seu irmão em Maryland, e se lembrou de ter encontrado Bromenshenk numa conferência. Um cartão de visitas guardado e uma ligação telefônica colocaram o Exército e a equipe de Alerta das Abelhas voando em volta da mesma flor.
Os primeiros passos foram desajeitados, parcialmente porque o laboratório do exército não era usado para testar abelhas, ou mais especificamente, para extrair proteínas de abelhas. "Acho que foi em janeiro de 2007, num encontro em Bethesda; pegamos um saco de abelhas e simplesmente começamos a amassá-las sobre a mesa", contou Charles Wick. O processo eventualmente se tornou mais refinado.
Os cientistas do projeto enfatizam que suas conclusões não são a palavra final. O padrão, segundo eles, parece claro, mas é preciso conduzir mais pesquisas para determinar, por exemplo, o grau em que as epidemias podem ser evitadas, e até onde fatores ambientais como calor, frio ou estiagem poderiam desempenhar algum papel.
Eles disseram que os ataques combinados, como o vírus e o fungo envolvidos na morte das abelhas, são bastante comuns na natureza, e que a solução para proteger as colônias de abelhas pode estar em focar no fungo - controlável com agentes antifúngicos.
Ainda não se sabe o que faz as abelhas voarem para longe antes de morrer. Uma teoria, segundo Bromenshenk, é que a combinação vírus-fungo interrompe as habilidades de memória ou navegação da abelha, e ela simplesmente se perde. Outra possibilidade, disse ele, seria um tipo de insanidade de insetos.
De qualquer forma, a própria operação na universidade se mostrou vulnerável no ano passado, quando quase todas as abelhas desapareceram durante o inverno.


© 2010 New York Times News Service Tradução: Pedro Kuyumjian
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